A reorganização do setor elétrico brasileiro mostra que a eletricidade hoje responde menos à produção do que à remuneração do capital e aos interesses dos grandes agentes Por Midori Hamada Este texto é a segunda parte do artigo “A transição energética sob controle do mercado”, organizado em dois textos que denunciam as violências estruturais do setor elétrico brasileiro. Depois de ler “Quando a tarifa vale mais que a energia”, leia também “A culpa nos telhados” Este texto foi publicado originalmente em Le Monde Diplomatique O debate sobre energia no Brasil costuma ser organizado em torno de uma imagem recorrente de um setor movido pela produção e pela oferta, sustentado pela ideia de segurança no abastecimento. A eletricidade apareceria, assim, como problema técnico de geração, transmissão, distribuição e equilíbrio do sistema. Essa imagem nunca é inteiramente falsa. Mas ela é pequena demais para explicar o que hoje move o setor elétrico
Como a geração distribuída de energia virou promessa de autonomia e explicação conveniente para os impasses do sistema elétrico brasileiro Por Midori Hamada Este texto é a primeira parte do artigo “A transição energética sob controle do mercado”, organizado em dois textos que denunciam as violências estruturais do setor elétrico brasileiro. Depois de ler “A culpa nos telhados”, leia também “Quando a tarifa vale mais que a energia”. Este texto foi publicado originalmente em Le Monde Diplomatique O Brasil costuma ser apresentado por governos, empresas do setor elétrico, organismos internacionais, parte da academia e agentes do mercado financeiro como uma promessa energética global. Um país de rios extensos, sol abundante, ventos constantes e uma matriz elétrica que, vista de fora, parece antecipar o futuro. Em tempos de crise climática, essa imagem tem força. Ela sugere um país em posição privilegiada para conduzir uma transição energética em grande escala, combinando renováveis,
Reforçamos, neste 13 de maio, a denúncia da CPT sobre o aumento dos registros de trabalho escravo no Brasil, enquanto as operações de combate a esse crime enfrentam paralisia. Neste 13 de maio, a memória da luta contra a escravidão encontra uma denúncia urgente do presente. Segundo a Comissão Pastoral da Terra (CPT), só em 2025, mais de 3 mil pessoas foram encontradas em condições análogas à escravidão no Brasil. Com isso, o número de pessoas escravizadas nos últimos quatro anos ultrapassa 11,5 mil. Desse total, 78% eram trabalhadores e trabalhadoras rurais. A pastoral também alerta para a paralisia das operações de combate ao trabalho escravo, que deixa sem atendimento muitas pessoas submetidas a essa violência. É a partir dessa realidade que o 13 de maio precisa ser lido. Em 1888, a Lei Áurea declarou extinta a escravidão no Brasil, mas a memória dessa data vai muito além da assinatura
Relatório inédito da APIB revela como empresas, investidores e governos internacionais atuam junto a políticos e ao sistema de justiça no Brasil para abrir terras indígenas à mineração. Por Midori Hamada Há conflitos que dizem respeito a um país. Outros revelam um tempo histórico. A disputa em torno da mineração em terras indígenas no Brasil se insere nesse segundo caso. O que está em jogo vai além de uma uma controvérsia entre crescimento econômico e ações de proteção dos direitos territoriais e do meio ambiente. Trata-se da possibilidade de que a transição energética global, apresentada como resposta à crise climática, se converta em justificativa para uma nova rodada de roubos e invasões territoriais, agora revestida de linguagem técnica, alinhada com ambição geopolítica e promessas de futuro. No Brasil, essa mudança já aparece com força. Impulsionada pela corrida por minerais como lítio, níquel, cobre, cobalto e terras raras, usados em baterias,
Filme lançado no ATL 2026 transforma ficção em alerta sobre soberania e futuro O que acontece quando um país perde o controle sobre o próprio território? A pergunta é um dos pontos de partida do curta-metragem ‘Vitória Régia’. A resposta para essa pergunta é retratada em forma de ficção, mas com elementos que dialogam com o presente de forma direta. Lançado durante o Acampamento Terra Livre de 2026, o filme foi construído pelo Coletivo Zero em articulação com a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB) e o G9 da Amazônia Indígena, uma coalizão internacional formada por lideranças dos nove países amazônicos. A obra apresenta um Brasil sob ditadura após um golpe de Estado. Nesse cenário, a Amazônia passa ao controle de interesses estrangeiros e recebe o nome de “Amazon of America”. A narrativa acompanha uma jornalista que atravessa a floresta
O protagonismo das mulheres e da comunicação popular indígena nas recentes vitórias sociais no Pará carrega a memória da Cabanagem e fortalece o sentido da mobilização política no Brasil. por Caio Mota No dia 23 de fevereiro deste ano, depois de 33 dias de intensa mobilização no oeste do Pará e de articulações que chegaram até Brasília, a pressão dos povos indígenas levou à derrubada do decreto federal que abria caminho para a privatização dos rios Tapajós, Madeira e Tocantins. O presidente Lula anulou a medida e a decisão foi comunicada pela ministra dos Povos Indígenas, Sonia Guajajara, e pelo ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, Guilherme Boulos, após esse ciclo de mobilizações do movimento indígena. O governo reconheceu o erro de ter tomado uma decisão de grande impacto socioambiental sem promover debate público e, sobretudo, sem consultar as populações diretamente afetadas, como estabelece a Convenção 169 da Organização
A Proteja nasce em 2015, em meio a um cenário marcado por emergências, violações e disputas profundas sobre a terra e os modos de vida. Desde o início, nossa caminhada se constrói em diálogo direto com os territórios. Entendemos que as emergências não surgem por acaso. Elas expressam um sistema que transforma a vida em mercadoria, concentra poder e insiste em chamar destruição de progresso. Esse sistema capitalista tem raízes coloniais, racistas e patriarcais, que seguem produzindo violência no campo e nas cidades. Ao longo desses dez anos, atravessamos diferentes contextos políticos, crises institucionais e o avanço de projetos que ameaçam bens comuns e modos de vida. Foi nesse cenário que fortalecemos nossa forma de atuar, com a certeza de que proteger é um ato político. Proteger significa fortalecer a organização coletiva, ampliar a autonomia dos povos e consolidar redes de solidariedade que sustentam a luta no cotidiano. Nossa atuação
Comunicação popular, cultura e clima no mesmo chão. Festival O Futuro se Faz em Luta! Seguimos em movimento Água e energia não são mercadoria! Leia e compartilhe o manifesto do festival ‘Nossa muvuca de sementes que cultivam futuros’
Reflexões sobre o papel da Comunicação Popular na disputa de sociedade. por Midori Hamada A comunicação sempre foi um eixo fundamental das disputas políticas, sociais e culturais. Desde os mitos que sustentaram impérios, passando pelas narrativas coloniais que justificaram invasões, até as versões impostas como oficiais da história que tentaram apagar povos inteiros, a disputa pelo mundo começa pela disputa da palavra e da percepção. Em qualquer época, comunicar também significa disputar o que é reconhecido como real, justo, desejável e possível. É disputar o imaginário.No contexto atual, marcado por desigualdades profundas, conflitos territoriais, hiperconexão digital e pela reorganização conservadora das forças políticas, essa disputa não desapareceu nem começou agora. Ela apenas se tornou mais visível, mais acelerada e mais difundida. Mas sua natureza é a mesma: quem não disputa o imaginário, deixa que outros definam o mundo através dele. Este texto reflete sobre quatro dimensões que nós da Proteja
A ameaça da crise climática e do descaso do poder público aos terreiros de religiões de matrizes africanas e a luta pela proteção desses territórios sagrados, em Manaus No mês em que o Brasil celebra a Consciência Negra e sediou a COP30, a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, um mapeamento inédito revelou uma ameaça direta aos terreiros de religiões de matrizes africanas, em Manaus. Muitos desses territórios sagrados estão instalados em áreas suscetíveis a deslizamentos e inundações. O levantamento, construído a partir de dados públicos, mostra que comunidades negras e de terreiro convivem com riscos altos em regiões marcadas por ocupações precárias, falta de infraestrutura e impactos que se intensificam com a crise climática. Esse cenário expressa o racismo ambiental e expõe como a cidade foi organizada de forma desigual, deixando populações inteiras sem proteção e sem acesso a políticas de adaptação. A investigação foi publicada no boletim
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