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Vitória Régia: quando o futuro sombrio encosta na realidade

Imagem de trecho do filme Vitória Régia
foto divulgação Vitória Régia

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Filme lançado no ATL 2026 transforma ficção em alerta sobre soberania e futuro

O que acontece quando um país perde o controle sobre o próprio território? A pergunta é um dos pontos de partida do curta-metragem ‘Vitória Régia’. A resposta para essa pergunta é retratada em forma de ficção, mas com elementos que dialogam com o presente de forma direta.

Lançado durante o Acampamento Terra Livre de 2026, o filme foi construído pelo Coletivo Zero em articulação com a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB) e o G9 da Amazônia Indígena, uma coalizão internacional formada por lideranças dos nove países amazônicos. A obra apresenta um Brasil sob ditadura após um golpe de Estado. Nesse cenário, a Amazônia passa ao controle de interesses estrangeiros e recebe o nome de “Amazon of America”.

A narrativa acompanha uma jornalista que atravessa a floresta para romper o bloqueio de informações e denunciar o que está acontecendo. Ao longo do caminho, surge uma articulação formada por povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais que se organizam para sustentar outro horizonte de futuro.

O uso de um futuro sombrio aproxima o filme da realidade. A narrativa se ancora em fatos recentes, como os ataques de 8 de janeiro de 2023, e projeta um cenário possível a partir de elementos que já estão em curso. A combinação entre instabilidade política, pressão internacional sobre recursos naturais, fragilização de acordos globais, avanço de interesses econômicos sobre territórios e permanência de práticas coloniais revela uma disputa concreta. O que o filme apresenta como ficção dialoga diretamente com processos que já tensionam a soberania e o controle sobre muitos territórios, assim como a Amazônia.

O tema do colonialismo atravessa toda a narrativa. O cenário apresentado fala da Amazônia, mas encontra ecos em diferentes regiões do mundo. Territórios como Palestina, Congo, Sudão ou Groenlândia vivem conflitos marcados pela disputa por terra e poder. Cada realidade tem sua história, mas existe uma lógica comum que sustenta essas situações. Essa lógica se expressa por meio de violências contínuas, que atingem povos, culturas, modos de vida e biodiversidades para atender interesses econômicos concentrados em pequenos grupos políticos. Em muitos desses contextos, essas práticas resultam em processos de extermínio e destruição de culturas, configurando cenários de genocídio que seguem em curso em diferentes partes do mundo.

O filme traz símbolos e referências que ampliam esse sentido político. As máscaras associadas ao movimento zapatista, junto às experiências de organização em espaços de resistência que remetem a quilombos e aldeias indígenas, apontam para formas concretas de luta construídas ao longo do tempo. Esses elementos reforçam a ideia de que a construção de futuro nasce do cuidado com a terra e com as pessoas. As disputas seguem centradas no território, e a organização dos povos aparece como uma força viva que sustenta caminhos possíveis diante dos conflitos.

Vitória Régia integra os esforços da campanha A Resposta Somos Nós, que fortalece narrativas construídas a partir dos territórios. Protagonizada pela APIB e pela COIAB, a campanha articulou dezenas de movimentos sociais e políticos para além do movimento indígena. A proposta afirma que a construção de saídas nasce da organização coletiva, da ação direta e da capacidade de articulação dos povos.

Nesse processo, nós da Proteja contribuímos na construção do planejamento da campanha, realizado em Manaus, em 2024. A atuação esteve voltada à organização de estratégia e narrativa, conectando diferentes iniciativas. O filme surge como uma expressão dessa construção, articulando linguagem audiovisual e mobilização política.

Vitória Régia amplia o debate sobre o rumo do país. Ao transformar em imagem um futuro possível, o filme tensiona o presente e coloca em evidência a disputa por soberania. O que aparece na tela dialoga com processos que já estão em curso.

Ao mesmo tempo, a obra aponta caminhos. A resistência apresentada se conecta com mobilizações reais e com processos organizativos que seguem vivos nos territórios. Existe uma força em movimento que sustenta outras possibilidades de futuro.

O filme convoca o público a se posicionar. A história coloca uma escolha em aberto sobre qual caminho seguir e com quem caminhar.

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