O povo organizado transforma a história!
O ciclo 2026 • 2027 se abre em um cenário de reorganização profunda das forças políticas e econômicas no Brasil e no mundo. A disputa pelos territórios, pelos bens comuns, pela soberania nacional e pelos sentidos da democracia se torna cada vez mais aberta. O que está em jogo atravessa as eleições, o Congresso Nacional, os tribunais, as políticas climáticas, a comunicação digital, os fluxos de financiamento e a própria capacidade dos povos e movimentos populares de projetarem um plano de país.
A conjuntura internacional aponta para uma nova etapa de instabilidade. A retomada do governo Trump nos Estados Unidos reorganiza a política externa norte-americana a partir de uma lógica mais agressiva , que enfraquece organismos internacionais e o multilateralismo para ampliar dinâmicas de pressão comercial, disputa tecnológica e uso do poder econômico e militar como instrumento de coerção. Essa orientação recoloca a América Latina em um campo de tensão geopolítica, especialmente em temas como energia, minerais críticos, infraestrutura, comércio exterior, dados e alinhamentos diplomáticos. O Brasil entra nesse tabuleiro como país estratégico, com território continental, biodiversidade, água, terras agricultáveis, reservas minerais, matriz energética relevante e posição decisiva nas disputas sobre clima, alimentos e transição tecnológica.
Essa mudança ocorre em um mundo que amplia investimentos em guerra. Os gastos militares globais chegaram a um novo recorde em 2025, alcançando cerca de US$ 2,9 trilhões, segundo o SIPRI, em um contexto de guerras abertas, corrida armamentista, fortalecimento de alianças militares e aumento da centralidade da segurança nas decisões de Estado. A militarização global pressiona orçamentos públicos para reorganizar prioridades políticas e também aprofunda a lógica de controle sobre territórios estratégicos. Para os povos, comunidades, organizações e movimentos sociais que defendem terra, território e modos de vida, esse cenário amplia riscos, porque a linguagem da segurança costuma caminhar junto da criminalização da luta, da vigilância, da repressão e da flexibilização de direitos em nome do interesse econômico de poucos.
No mesmo período, o campo dos direitos humanos e da sociedade civil enfrenta uma contração importante de recursos. Cortes em apoios da filantropia internacional, mudanças nas prioridades de investimentos em áreas socioambientais de governos do Norte Global e ataques políticos a organizações da sociedade civil criam um ambiente de maior insegurança para entidades que atuam com democracia, direitos, comunicação popular, justiça climática, povos indígenas, mulheres, população LGBTQIA+, comunidades tradicionais e enfrentamento ao racismo. A OCDE registrou uma queda histórica da assistência internacional em 2025, enquanto análises do campo de direitos humanos apontam uma crise severa de financiamento e de espaço cívico. Isso exige mais autonomia, diversificação de estratégias, fortalecimento de redes de solidariedade e maior capacidade de sustentar processos de longo prazo sem depender apenas dos ciclos instáveis da filantropia internacional.
No Brasil, essa conjuntura global se expressa em um momento político atravessado pelas eleições de 2026 e pela disputa sobre o sentido real da democracia. A democracia representativa segue sendo um campo importante de disputa, mas sua efetividade precisa ser analisada com mais profundidade. A eleição organiza parte da correlação de forças, define governos, compõe os parlamentos em nível nacional, estadual e municipal abrindo ou fechando caminhos institucionais. Ao mesmo tempo, a experiência recente mostra que o voto, isoladamente, não garante direitos, soberania popular, nem transformação estrutural.
Esse cenário é marcado por uma desigualdade estrutural que organiza o próprio funcionamento do sistema político brasileiro. Os movimentos populares são obrigados a disputar a política dentro de uma institucionalidade que já nasce desigual, construída para concentrar poder e limitar a participação da maioria. Um ambiente que mantém um verniz de democracia, mas que, na prática, impõe condições desfavoráveis para a incidência política dos movimentos populares e para a efetivação de direitos sociais da maioria da população.
O sistema político brasileiro segue atravessado pelo poder econômico, pelas emendas parlamentares, pela força do agronegócio, da mineração, das igrejas conservadoras, dos grandes grupos de mídia, das plataformas digitais e de setores que operam a política como negociação permanente sobre direitos coletivos.
O Congresso Nacional se consolida como uma das principais arenas de ataque aos direitos territoriais, ambientais e sociais. A ofensiva sobre os povos indígenas, quilombolas, camponeses e comunidades tradicionais se materializa em propostas que buscam alterar a própria Constituição Federal. É o caso da PEC 48, uma Proposta de Emenda à Constituição que tenta incluir o marco temporal no texto constitucional, para mudar as regras de demarcação de terras indígenas no Brasil.A aprovação da PEC do marco temporal no Senado, em dezembro de 2025, e seu envio à Câmara dos Deputados mostram que a disputa sobre terras indígenas segue ativa e organizada no Legislativo. A APIB também alertou, em 2026, para o risco de avanço de pelo menos seis propostas anti-indígenas no Congresso Nacional.
Esse avanço no Congresso amplia as pressões diretas sobre os territórios. As disputas institucionais se desdobram em conflitos concretos no campo, onde a violência se intensifica. O relatório anual da Comissão Pastoral da Terra, divulgado em abril de 2026, aponta um aumento de 100% no número de assassinatos no campo entre 2024 e 2025, evidenciando como as decisões e sinalizações políticas fortalecem um ambiente de maior risco para comunidades e lideranças.
Esse cenário exige que a luta popular complexifique seu debate sobre eleições. A disputa não se limita a quem ocupa o Executivo. A disputa também passa pela composição do Congresso Nacional, pelas assembleias legislativas, pelos governos estaduais, pelos municípios, pelo Judiciário, pelos mecanismos de orçamento e pelas estruturas permanentes do Estado. Sem força social organizada e capacidade de pressão, vitórias eleitorais tendem a ser capturadas pela governabilidade conservadora.
A extrema direita entra nesse ciclo com capacidade de articulação social, digital, religiosa, econômica e parlamentar. Sua força não se resume a candidaturas ou lideranças públicas. Ela opera como campo político enraizado em redes de financiamento e comunicação, que mobiliza medo, ressentimento, moralismo e defesa da propriedade como valor absoluto. Sua atuação no Congresso Nacional busca transformar a violência territorial em leis que legalizam crimes, enfraquecem mecanismos de fiscalização e desmontam políticas públicas. Ao mesmo tempo, a desinformação se consolida como método de disputa política e a proteção constitucional passa a ser tratada como obstáculo aos interesses do mercado financeiro. Por isso, 2026 precisa ser lido como ano de disputa de projeto, com a necessidade de conter retrocessos e fortalecer base social para além do calendário eleitoral.
A agenda climática chega ao pós-COP30 em um momento de ressaca política. A realização da conferência em Belém ampliou a visibilidade da Amazônia, dos povos indígenas e das contradições do debate climático global. Ao mesmo tempo, os resultados formais da COP30 foram avaliados por diferentes análises como insuficientes diante da urgência da crise, especialmente pela ausência de compromissos mais fortes sobre combustíveis fósseis e pela manutenção de impasses sobre financiamento climático. A conferência reafirmou a importância do multilateralismo, mas também mostrou os limites de uma governança climática que reconhece a gravidade do colapso ambiental enquanto preserva as bases econômicas que o produzem.
Para nós, o pós-COP30 exige transformar a visibilidade em organização contínua. A centralidade simbólica da Amazônia não garante proteção aos territórios. A presença de povos indígenas e movimentos sociais no debate climático não altera, por si só, a correlação de forças, ainda mais em um cenário de enfraquecimento do multilateralismo.A agenda climática segue disputada por corporações, fundos financeiros, governos, plataformas tecnológicas e mercados interessados em transformar floresta, carbono, biodiversidade, água e minerais em ativos. A transição energética e a economia verde se apresentam como futuro, enquanto reproduzem velhas formas de espoliação sobre territórios indígenas, quilombolas, camponeses e comunidades tradicionais. Diante disso, ganha força a necessidade de aterrizar esse debate nas cidades e nos territórios, conectando o tema climático com a vida concreta das pessoas. É nesse nível que a disputa se sustenta, com iniciativas locais de organização popular e com ações contínuas que enfrentem a crise a partir dos territórios e fortaleçam caminhos próprios de futuro.
Essa disputa recoloca o debate sobre soberania nacional em outro patamar. Defender soberania, hoje, exige falar de terra, água, floresta, energia, alimentos, dados, infraestrutura, minerais, tecnologia e capacidade popular de decidir os rumos do país. A soberania não pode ser reduzida à defesa abstrata do Estado nacional, especialmente quando o próprio Estado atua, muitas vezes, como mediador da entrada do capital sobre os territórios. A soberania que interessa aos movimentos populares precisa partir dos povos, da capacidade coletiva de definir o que deve ser produzido, para quem, com quais limites e sob qual forma de controle social.
As tecnologias digitais e a inteligência artificial também passam a ocupar lugar central nessa conjuntura. Nas eleições de 2026, esse tema aparece com força no uso de conteúdos manipulados, como vídeos e áudios falsos gerados por inteligência artificial, além de outras formas de desinformação. O Tribunal Superior Eleitoral estabeleceu regras para tentar conter a circulação de conteúdos fabricados ou alterados que possam interferir no equilíbrio da disputa, incluindo o uso dessas tecnologias para favorecer ou prejudicar candidaturas.
Essas medidas respondem a um problema concreto, mas a disputa tecnológica vai além do período eleitoral. A inteligência artificial já impacta a forma como narrativas são produzidas, como informações circulam e como comportamentos são monitorados e direcionados. Também influencia a organização do trabalho de comunicação e o controle sobre dados, que passa a ter um peso cada vez maior nas decisões políticas e na dinâmica do país.
O Brasil também passou a discutir com mais força a atração de data centers, a regulação de mercados digitais e o papel da infraestrutura tecnológica no desenvolvimento nacional. Em 2025, o governo lançou medidas para atrair investimentos em data centers e propostas de regulação da concorrência digital, com estimativas oficiais de grande volume de investimento no setor. Esse debate precisa ser acompanhado desde a perspectiva popular, porque dados, energia e infraestrutura digital se tornaram parte da disputa por soberania. A tecnologia que promete eficiência também demanda água, energia, território, minerais, cabos, servidores e controle sobre informação.
Nesse cenário, a comunicação popular assume uma função ainda mais estratégica. Ela precisa produzir leitura política, traduzir complexidade, sustentar memória, enfrentar desinformação, fortalecer bases e conectar lutas que muitas vezes aparecem separadas. Comunicação não é apenas visibilidade. É capacidade de interpretação coletiva. É disputa sobre o que está acontecendo, quem produz a crise, quem lucra com ela e quais caminhos podem ser construídos a partir dos territórios. E é também mobilizar as estratégias das organizações sociais do campo popular.
Nós da Proteja entramos nesse ciclo buscando contribuir com o fortalecimento de organizações e movimentos populares diante dessa complexidade, apoiando processos que ampliem sua capacidade de atuação.. A prioridade é atuar próxima de quem está na linha de frente das lutas por terra e território, contribuindo para processos de planejamento, comunicação, sistematização, gestão, formação e incidência. O momento exige menos respostas fragmentadas e mais construção de horizonte comum. Exige menos adaptação passiva aos calendários institucionais e mais capacidade de formular projeto político.
Queremos fortalecer a construção de um horizonte de país que nasce da diversidade de ações e propostas já articuladas pelos movimentos populares. Uma mobilização estratégica de esforços para conectar experiências vivas nos territórios e apontar para uma revolução capaz de fundar outra base de organização social no Brasil. Falamos de uma revolução sobre o sentido da democracia, construída a partir da vida concreta das pessoas. Esse caminho se enraíza na defesa dos territórios e na afirmação de formas de organização que recolocam no centro a relação com a terra, o cuidado e a autonomia dos povos. Ao ganhar conexão e direção comum, essas iniciativas ampliam sua força e passam a disputar a imaginação política do país, afirmando que o futuro do Brasil não pode ser definido por interesses concentrados, mas pela capacidade coletiva de construir outros caminhos.