Nossa caminhada com a APIB nos ciclos de planejamentos de luta junto ao Fórum Nacional de Lideranças Indígenas.
Ao longo dos últimos seis anos, nós da Proteja temos caminhado junto da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) em momentos decisivos de ação e planejamento da luta. Foram momentos em que o movimento indígena nacional escolheu parar e respirar fundo para refletir sobre seus próximos passos. Nosso papel nessas atividades foi apoiar a organização metodológica e política dos encontros, sem assumir a condução das lideranças indígenas. Quem conduz o processo é o Fórum Nacional de Lideranças Indígenas (FNLI), que é o espaço de decisão política da APIB que reúne representantes das sete organizações regionais da articulação.
organizações regionais de base da APIB
APIB, APOINME, ARPINSUDESTE, ARPINSUL, Aty Guasu, COIAB, Conselho do Povo Terena e Comissão Guarani Yvyrupa são as bases organizativas da APIB que conectam a mobilização indígena em todas as regiões do Brasil
Nós da Proteja atuamos para criar condições de participação e escuta, fortalecendo uma construção coletiva da estratégia de luta conduzida pelas próprias organizações. Apoiamos na sistematização dos debates para que os encaminhamentos partam da realidade vivida pelas regionais da APIB. Respeitamos os tempos e os modos de decisão de cada organização, ajudando a transformar reflexões em acordos construídos de forma consensuada. Nosso compromisso é contribuir para mais nitidez estratégica e para fortalecer a capacidade de execução das ações no cotidiano do movimento.
Nossa reflexão é de que planejar integra as ações que compõem as lutas sociais. Esses encontros não podem ser lidos como um rito ‘burocrático’ de organização interna. Acreditamos que é um gesto coletivo de cuidado com o rumo político das lutas que as organizações enfrentam. Criar tempo para avaliar, analisar o cenário que se deve enfrentar, organizar os próximos passos que devem ser dados e pactuar acordos são exercícios fundamentais para o fortalecimento da autonomia organizacional. Por isso, apoiamos esses momentos estratégicos da APIB atentos para que a visão política da luta esteja sempre alinhada com o conjunto da governança do FNLI.
“DIGA AO POVO QUE AVANCE!”
Em fevereiro de 2022, apoiamos o planejamento da APIB junto ao Fórum, realizado no território do povo Potiguara, no município de Baía da Traição, na Paraíba. O encontro, organizado na base de articulação da APOINME, reuniu cerca de 90 lideranças, representantes de todas as organizações regionais da APIB, para definir os rumos dos três anos seguintes de atuação da articulação nacional.
O contexto político que atravessava aquele momento de planejamento era de forte ofensiva contra os direitos indígenas. O país ainda vivia os impactos da pandemia da COVID-19, que aprofundou a crise social e expôs a vulnerabilidade de muitos territórios. Entre 2018 e 2022, o governo Bolsonaro implementou sua política de morte que organizou um novo ciclo de genocídio aos povos indígenas. Era um período de tensão, marcado por conflitos territoriais e institucionais que desmontaram políticas públicas voltadas para os povos indígenas e que foram conquistadas através da luta das organizações do movimento indígena.
Ao mesmo tempo, 2022 era um ano eleitoral decisivo. Havia disputa para a presidência da República, governos estaduais e cadeiras no Congresso Nacional e nas assembleias legislativas estaduais. Paralelamente, muitas organizações que integram a APIB também passavam por processos internos de renovação de suas coordenações. O planejamento precisava considerar esse cenário amplo, entendendo que as decisões tomadas ali teriam impacto direto na forma como o movimento se posicionaria diante do novo ciclo político que se abria.
“Diga ao povo que avance!” foi o lema escolhido para orientar o encontro. A frase, presente na trajetória do movimento indígena do Nordeste, território anfitrião da atividade, carrega a memória de lideranças como Xicão Xukuru e Maninha Xukuru Kariri, símbolos de resistência para a continuidade da luta. Nesse sentido, a programação foi estruturada para fortalecer a união entre as organizações da APIB e construir uma estratégia comum. Entre os debates centrais esteve a Campanha Indígena, com a proposta de “aldear a política” e ampliar a incidência do movimento nos espaços de decisão, além da preparação para o Acampamento Terra Livre daquele ano e para o enfrentamento da agenda anti-indígena no cenário nacional.





























NOSSA FORÇA DE LUTAR
Em janeiro de 2024, apoiamos pela segunda vez o encontro do FNLI, que naquele ano realizava sua quarta edição dentro do processo de planejamento da APIB. A atividade aconteceu na Aldeia Tataendy Rupa, no Território Morro dos Cavalos, município de Palhoça, em Santa Catarina, sob acolhimento do povo Guarani, na área de atuação da Comissão Guarani Yvyrupa.
O objetivo central foi construir consensos entre as organizações regionais para orientar as ações do ano. O cenário era de forte tensão em torno do Marco Temporal, após o julgamento no Supremo Tribunal Federal no dia 27 de setembro e a reação do Congresso Nacional. Além disso, tratava-se de um ano de eleições municipais, o que exigia posicionamentos firmes e uma estratégia política bem definida por parte do movimento indígena.
A conjuntura também exigia uma avaliação do primeiro ano do governo Lula. O movimento precisava analisar os avanços e os limites das incidências realizadas pela APIB para retomar políticas desmontadas no governo Bolsonaro. A demarcação e proteção dos territórios seguiam como eixo central da luta. A criação do Ministério dos Povos Indígenas, anunciada durante a campanha presidencial e concretizada no primeiro ano de governo, era um marco importante, mas não encerrava os desafios. O Fórum se reuniu justamente para refletir sobre como fortalecer a incidência política diante desse novo cenário.
A escolha da Terra Indígena Morro dos Cavalos como local do encontro também teve sentido político. O território Guarani é símbolo de resistência histórica e sua demarcação seguia pendente naquele momento. Realizar o Fórum ali foi uma forma de reforçar a cobrança pública pelo cumprimento das promessas de demarcação. Onze meses depois da reunião, a demarcação foi concluída, representando uma vitória para o povo Guarani. Ainda assim, setores ligados ao agronegócio continuam tentando anular esse direito por meio de disputas no Congresso.
O planejamento realizado naquele encontro foi decisivo para orientar os passos da APIB em 2024 e 2025. Portanto, sugerimos a organização da metodologia da atividade em ciclos de debates que priorizaram os temas definidos como estratégicos pelas próprias organizações regionais. Nosso papel foi estruturar o processo para que todas as vozes fossem ouvidas e para que os debates resultassem em encaminhamentos concretos. Mantivemos o compromisso de fortalecer a decisão coletiva das lideranças, apoiando a construção de consensos e a definição do plano de ação do movimento para o período seguinte.























APIB SOMOS NÓS
Em fevereiro de 2026, voltamos a apoiar o FNLI, realizado dessa vez em Brasília, no centro das disputas institucionais do país. O encontro aconteceu em um momento político marcado por novos desafios e por uma reorganização das forças que pressionam os territórios indígenas. Poucos meses antes, o Brasil havia sediado a COP 30, em Belém, no Pará, e mais uma batalha contra o Marco Temporal havia sido travada no STF e para a APIB, isso exigia uma leitura atenta sobre como fortalecer sua incidência para além das fronteiras nacionais, sem perder de vista as ameaças concretas que seguem atuando dentro do Estado brasileiro. Ao mesmo tempo, o país se aproximava de mais um ciclo de eleições majoritárias, o que demandava posicionamento político e definição nítida de prioridades.
O Fórum se reuniu com a tarefa de analisar esse cenário e pactuar a estratégia de luta para o período seguinte. As lideranças discutiram o papel da APIB diante do governo federal, a relação com o Congresso Nacional e o Judiciário, e os caminhos para enfrentar projetos que seguem ameaçando direitos já conquistados. Um dos resultados das reflexões sobre esse processo está na publicação da “Carta Política do Fórum Nacional de Lideranças Indígenas da APIB aos parentes no governo” e do “Manifesto do Fórum Nacional de Lideranças Indígenas ao Estado Brasileiro”. Em um dos trechos, as lideranças afirmam: “Escrevemos porque a pressão sobre os territórios cresce, porque o racismo continua operando como método de governo, porque a máquina pública segue permitindo que o capital se organize para avançar sobre a terra, e porque os três poderes têm responsabilidade direta pelo que acontece com nossos povos.” O documento expressa a leitura coletiva construída ao longo dos debates e reafirma a responsabilidade do Estado diante das violações que persistem.
A metodologia que apoiamos partiu da análise de conjuntura elaborada pela própria APIB e por suas organizações regionais. O ponto de partida não foi uma fórmula pronta, mas a realidade concreta enfrentada pelas organizações indígenas. Organizamos os debates em ciclos que permitiram aprofundar os temas centrais, construir consensos e transformar reflexões em encaminhamentos objetivos.
Entre 2022, 2024 e 2026, a caminhada conjunta com a APIB consolidou um entendimento comum: planejar é parte da própria luta. Quando o movimento cria espaço para escutar suas bases e alinhar posições ele fortalece sua autonomia. Garantir a participação das organizações regionais, respeitando os tempos de cada um, e transformar o debate em plano de ação sustenta a unidade na diversidade.
Nós da Proteja seguiremos contribuindo com esses momentos de reflexão e ação estratégica da APIB sempre que formos convidada novamente. Nosso compromisso é com a construção coletiva que fortalece a autodeterminação dos povos e a capacidade de suas organizações conduzirem o rumo político do movimento indígena nacional.



























