Planejamento realizado em Santarém reforça o papel histórico do Conselho Indígena Tapajós e Arapiuns e aponta caminhos para enfrentar os novos desafios da luta territorial, da educação indígena e da defesa do rio Tapajós
Entre os dias 11 e 15 de agosto de 2025, o Conselho Indígena Tapajós e Arapiuns realizou, em sua sede em Santarém (PA), o primeiro Encontro de Planejamento Estratégico da organização. O momento reuniu lideranças de diferentes territórios, a coordenação da organização e referências históricas do movimento indígena do Baixo Tapajós. O objetivo era olhar para a própria trajetória, reconhecer os desafios atuais e organizar caminhos para fortalecer a atuação política do CITA nos próximos anos.
Com 25 anos de história, o CITA se consolidou como uma das principais referências da luta indígena na Amazônia. Hoje, a organização representa 14 povos, distribuídos em 119 aldeias e 15 territórios nos municípios de Santarém, Belterra e Aveiro. Esse crescimento ampliou a força política do movimento indígena na região, mas também trouxe novos desafios para a organização interna, a governança e a capacidade de responder às demandas das bases.
























O planejamento partiu do entendimento de que a força do CITA está na sua história de luta e na diversidade dos povos que representa. A Proteja esteve nesse processo contribuindo na organização metodológica e na facilitação do encontro. A metodologia valorizou a escuta das lideranças, o compartilhamento de informações e a análise coletiva da realidade do CITA. O foco inicial foi a construção de um diagnóstico político da atuação da organização, como base para orientar os debates e os encaminhamentos sobre as ações necessárias para fortalecer o Conselho.



A metodologia construída pela Proteja combinou rodas de conversa, grupos de trabalho temáticos e momentos de análise coletiva de conjuntura. Esse processo resultou na construção de materiais de referência que organizam as prioridades do CITA em áreas como defesa territorial, incidência política, fortalecimento institucional, saúde, educação e cultura, servindo como base para orientar as decisões da organização nos próximos anos.
O planejamento realizado em Santarém reforçou que fortalecer o CITA por dentro é condição para seguir enfrentando as disputas políticas na região. A necessidade de separar funções políticas e técnicas, cuidar da saúde das lideranças e qualificar a governança apareceu como central para garantir que a organização siga atuando com coerência e capacidade de mobilização.
Ao organizar seus próximos passos a partir desse processo, o CITA reafirma seu papel histórico na luta dos povos indígenas do Baixo Tapajós. Em um cenário de ataques aos territórios, à educação e aos bens comuns, o planejamento aponta para a continuidade de uma atuação firme, enraizada no território e comprometida com a defesa da vida.
Luta Cabana
Esse processo de planejamento aconteceu em um momento de forte mobilização dos povos do Baixo Tapajós. Em 2025, o CITA conquistou uma vitória fundamental, que se tornou um grande exemplo de luta popular em todo o Brasil. A mobilização indígena ocupou a Secretaria Estadual de Educação do Pará, em Belém, e a BR-316, e conseguiu derrubar a lei estadual 10.820/2024, que atingia diretamente a educação escolar indígena. Essas ações garantiram conquistas concretas e barraram ataques aos direitos educacionais dos povos indígenas da região.
Um ano após a vitória na defesa da educação indígena, o CITA em aliança com outras organizações do movimento indígena voltou a mobilizar os povos do Baixo Tapajós em uma nova luta. Em 22 de janeiro de 2026, lideranças indígenas iniciaram a ocupação do porto da multinacional do agronegócio Cargill, em Santarém (PA), em protesto contra a privatização do rio Tapajós. A mobilização reuniu povos de diferentes territórios e se transformou em um dos maiores levantes indígenas recentes da região. Após 33 dias de ocupação e diversas ações de pressão política, o governo federal anunciou a anulação do decreto que ameaçava os rios amazônicos, consolidando a segunda grande vitória do movimento em um intervalo de um ano.
A mobilização exigia a derrubada do Decreto 12.600/2025, que abria caminho para a privatização dos rios Tapajós, Madeira e Tocantins. O movimento também denunciou o processo de licitação para iniciar a dragagem do rio Tapajós e sua transformação em corredor de exportação de grãos, medida que traria impactos diretos à vida das comunidades e aos modos de existência dos povos que vivem em suas margens. Lideranças do Baixo Tapajós afirmaram que essas iniciativas foram conduzidas sem diálogo e sem consulta às populações afetadas, em desrespeito à Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho, que prevê o direito à consulta livre, prévia e informada.
Ao longo dessa mobilização, o protagonismo das mulheres indígenas e a força da comunicação popular produzida nos territórios ampliaram o alcance da luta. Essa atuação ajudou a transformar a defesa dos rios em um debate nacional e conectou a mobilização atual a uma memória mais antiga de resistência amazônica. Para muitas lideranças da região, essa força coletiva carrega a herança da Cabanagem e reafirma o sentido da mobilização política popular no Brasil.
Acompanhe as ações do CITA e siga a organização nas redes digitais.
Durante o processo de planejamento e organização das ações do movimento indígena do Baixo Tapajós, tivemos a presença e a contribuição da liderança Hélia Kumaruara, que faleceu no dia 26 de fevereiro de 2026. Hélia participou das reflexões e debates realizados, em 2025, trazendo sua experiência e visão sobre os desafios que os povos da região enfrentam para proteger seus territórios e seus modos de vida. Mulher de sabedoria, foi uma liderança que protagonizou com coragem importantes lutas em defesa dos direitos dos povos indígenas e do fortalecimento da organização coletiva no Baixo Tapajós.
Aproveitamos esta publicação para registrar nossa memória e nosso respeito à trajetória de Hélia Kumaruara, estendendo nossa solidariedade aos seus familiares, ao povo Kumaruara, ao Conselho Indígena Tapajós e Arapiuns e a todas as lideranças e organizações indígenas da região do Baixo Tapajós. Sua caminhada deixa ensinamentos que seguem vivos na luta do movimento indígena. Que sua memória permaneça presente em cada mobilização e conquista. Seu legado seguirá como força e inspiração para as atuais e futuras gerações