Reflexões sobre o papel da Comunicação Popular na disputa de sociedade.
por Midori Hamada
A comunicação sempre foi um eixo fundamental das disputas políticas, sociais e culturais. Desde os mitos que sustentaram impérios, passando pelas narrativas coloniais que justificaram invasões, até as versões impostas como oficiais da história que tentaram apagar povos inteiros, a disputa pelo mundo começa pela disputa da palavra e da percepção.
Em qualquer época, comunicar também significa disputar o que é reconhecido como real, justo, desejável e possível. É disputar o imaginário.
No contexto atual, marcado por desigualdades profundas, conflitos territoriais, hiperconexão digital e pela reorganização conservadora das forças políticas, essa disputa não desapareceu nem começou agora. Ela apenas se tornou mais visível, mais acelerada e mais difundida.
Mas sua natureza é a mesma: quem não disputa o imaginário, deixa que outros definam o mundo através dele.
Este texto reflete sobre quatro dimensões que nós da Proteja consideramos essenciais para a comunicação popular:
- Como percebemos e sentimos a realidade;
- Como a palavra molda os sentidos que damos ao mundo;
- O papel da comunicação enquanto relação, formação e organização;
- A disputa de imaginário como prática para construir futuros coletivos.
Esses pontos fizeram parte das discussões levadas ao encontro promovido pelo Festival O Futuro se Faz em Luta, realizado entre 23 e 25 de outubro de 2025, no município de Sinop, em Mato Grosso.
1. A realidade não é neutra: é percebida e construída
A realidade não se apresenta para nós como um conjunto de fatos brutos. Ela é mediada pelas nossas percepções, experiências, emoções e referências culturais. O que sentimos orienta o que reconhecemos como real. E o que acreditamos ser real orienta o que somos capazes de sentir, e também de transformar.
Esse processo dá origem ao imaginário: um campo coletivo de ideias, valores, símbolos e afetos que orienta comportamentos, expectativas e ações. É ele que permite a seletividade para que certas violências sejam normalizadas, que certas injustiças sejam invisibilizadas e que certos futuros pareçam impossíveis antes mesmo de serem tentados. Por isso, não existe transformação social sem transformação do imaginário.
2. A palavra molda a realidade que reconhecemos
A linguagem não descreve apenas o mundo: ela organiza o modo como o mundo pode ser percebido.
Quando se chama devastação de “progresso”, violência de “ordem”, monocultura de “desenvolvimento” ou exploração de “oportunidade”, não estamos apenas trocando palavras. Estamos mudando o enquadramento que permite ou impede que a injustiça seja reconhecida como tal.
A palavra pode revelar ou esconder. Pode ampliar a imaginação ou confiná-la. Pode libertar ou aprisionar.
Por isso, a comunicação popular vai além dos formatos como cartaz, vídeo, rádio, meme, teatro, rede social. Para nós, ela deve trabalhar com sentido. A plataforma escolhida para modular esse sentido nasce das táticas que definem a abordagem mais assertiva para quem queremos comunicar. É uma prática que toma de volta palavras sequestradas, recupera os nomes das coisas e disputa os significados que estruturam a vida social.
Quem nomeia o mundo disputa seus limites e possibilidades.
3. Comunicação é vínculo, e vínculo é organização
Informar é uma etapa. Comunicar é outra.
A comunicação popular funciona como processo de relação. Não conseguimos resumir ela como uma técnica.
Ela nasce da escuta, do encontro, do aprendizado mútuo, das rodas, dos mutirões, das assembleias, dos territórios.
Esses vínculos sustenta, a palavra e dão força à mensagem. Sem vínculo, a palavra vira ruído. Sem processo, a mensagem perde força. Sem participação, a comunicação se desconecta da realidade concreta das bases sociais que queremos dialogar.
É no vínculo que o imaginário começa a se mover. É na relação que as pessoas podem se conectar, compreender que não estão sozinhas e fazer sentido para estarem mobilizadas e organizadas. A comunicação popular, quando enraizada na vida, deixa de ser só produção de conteúdo e se torna instrumento de formação política para criação coletiva de consciência e de fortalecimento de bases sociais diversas.
4. Disputar o imaginário é disputar o futuro
Toda sociedade é orientada por um conjunto de imagens e ideias sobre o que é bom, justo, possível ou inevitável. Esse conjunto, o imaginário, é um campo de poder.
Se não disputamos esse campo, outros o farão: o capital, as elites políticas, os fundamentalismos, os interesses privados, a propaganda.
Nos baseamos na comunicação popular para atuar justamente aí: no terreno em que a percepção se forma, onde a linguagem ganha sentido e onde as pessoas elaboram suas identidades e horizontes.
Ela não se limita a denunciar o que está errado. Ela deve anunciar o que é possível, como ensinava Paulo Freire. Afirmar a vida que resiste, não apenas a morte que avança. Afirma o futuro que se levanta, não apenas a violência do presente.
E é na ação coletiva, organizada, consciente e movida por sentido, que esse futuro ganha forma.
Comunicação como trabalho de mundo
Para nós, a comunicação popular não é acessório, não é setor, não é recurso técnico. Ela é uma das dimensões mais profundas da luta social.
Porque aquilo que o povo sente, nomeia, imagina e comunica, determina aquilo que é capaz de construir.
Por isso afirmamos: o futuro não é dado. O futuro se disputa.
E só se constrói em luta, com palavra, vínculo, imaginação e ação coletiva.