Atividade de formação com a DACE
Foto: Caio Mota

Gestão que nasce do território

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O processo de fortalecimento da Dace na gestão do território Munduruku.

A relação da Proteja com a Associação Indígena Dace nasce do compromisso comum com a defesa do território Munduruku no Baixo Teles Pires. Desde 2015, acompanhamos de perto a luta do povo Munduruku contra hidrelétricas, invasões e violações que atingem diretamente suas vidas, seus bens sagrados e seus modos de existir. Ao longo desses anos, construímos uma parceria baseada em confiança e presença contínua, sempre com a intenção de fortalecer a autonomia da Dace e ampliar sua capacidade organizativa.

Em 2023, a Dace expressou o desejo de avançar em sua própria estrutura de gestão, buscando mais autonomia para conduzir projetos, organizar demandas internas e planejar o futuro da associação. A partir desse interesse, apoiamos a elaboração e captação do projeto de Fortalecimento Institucional, financiado pelo Fundo Casa e pela Embaixada da Noruega. A proposta foi pensada para fortalecer a organização de dentro para fora, criando rotinas, fluxos e práticas que sustentem o trabalho cotidiano da Dace.

O projeto começou a ser executado em 2024, com um foco inicial na criação de uma base sólida de gestão. Para isso, construímos um processo formativo dividido em etapas online e presenciais. A metodologia seguiu o modo estratégico da Proteja: escutar primeiro, compreender as condições de trabalho da associação e adaptar cada conteúdo para a realidade vivida pela equipe indígena da Dace. O objetivo não era ensinar modelos prontos, mas criar caminhos possíveis para que a própria Dace se fortalecesse com segurança e autonomia.

A primeira parte do processo aconteceu de forma online, em função do bloqueio temporário da conta bancária da associação. As oficinas virtuais ocorreram entre julho e agosto de 2024, organizadas em módulos semanais. A cada encontro, introduzíamos um tema e, logo em seguida, propúnhamos exercícios práticos, sempre conectados às atividades reais da associação. Foram tratados assuntos como conciliação bancária, organização de documentos, rotinas administrativas, elaboração de contratos, organização de comprovações financeiras, uso de planilhas e preparação de relatórios.

Um ponto fundamental da metodologia foi reservar tempo para escuta no início de cada módulo. Esse momento permitiu que a equipe indígena falasse sobre suas dificuldades, dúvidas e avanços. Também nos manteve atentos às condições do território, oscilação de energia, queda de internet, limitações de equipamentos, domínio parcial da língua portuguesa e desafios com informática. Esses elementos não eram obstáculos, mas aspectos essenciais para ajustar o ritmo e garantir que todos os aprendizados fizessem sentido no cotidiano real da Dace.

Após a etapa online, avançamos para os encontros presenciais em Alta Floresta. A primeira oficina presencial aconteceu entre 26 de agosto e 1º de setembro de 2024, reunindo a equipe da Dace, lideranças e representantes de outros projetos ligados ao território. A atividade foi construída como um espaço de trabalho intenso: reorganização dos fluxos, revisão do controle financeiro, regularização de pendências, elaboração de documentos, atualização de orçamentos, planejamento de compras e preparação dos relatórios intermediários. Essa etapa também permitiu fortalecer vínculos internos, dividir responsabilidades e consolidar a atuação conjunta da equipe de gestão.

O encontro presencial também foi importante para retomar o diálogo sobre o projeto Ipi Kay Hag, conduzido pelo povo Munduruku para proteger e registrar seus locais sagrados. Foram gravados relatos, feitas traduções e reorganizadas prioridades, mostrando como o fortalecimento institucional da Dace também apoia processos mais amplos de proteção territorial e cultural.

A segunda oficina presencial, realizada entre 26 de janeiro e 2 de fevereiro de 2025, teve foco no fechamento do projeto e no planejamento futuro. Foi o momento de concluir pagamentos, organizar a documentação comprobatória, finalizar relatórios narrativos e financeiros e consolidar a avaliação da equipe indígena sobre os avanços alcançados. Nesse encontro também trabalhamos a escrita de um novo projeto para dar continuidade ao processo de fortalecimento institucional em 2025.

A metodologia priorizou a autonomia da Dace. As lideranças e a equipe de gestão conduziram debates, apontaram desafios, indicaram prioridades e expressaram seus sons e sentidos próprios, inclusive escrevendo partes do relatório final em Munduruku quando necessário. Também foi durante essa etapa que a equipe decidiu sobre compras essenciais para a sede, avaliou dificuldades com informática e matemática básica e propôs caminhos de capacitação para os próximos anos.

O processo formativo também gerou resultados importantes que não estavam previstos inicialmente: a abertura de novas contas bancárias, a participação ampliada de mulheres, a aquisição de equipamentos de informática, a organização de documentos institucionais e a apropriação mais segura dos fluxos administrativos.

O fortalecimento institucional da Dace, entre 2024 e 2025, buscou reforçar que gestão também é parte da luta política no território. Ao criar rotinas, organizar documentos, planejar recursos e manter registros vivos, a associação amplia sua força para enfrentar desafios, articular parceiros, dialogar com o Estado e exigir, e também, garantir direitos. Para a Proteja, caminhar junto da Dace significa alimentar vínculos e apoiar a autonomia do povo Munduruku na construção de futuros onde seus territórios, suas histórias e suas práticas sigam vivas. Esse caminho aconteceu com apoio do Fundo Socioambiental Casa, da Embaixada Real da Noruega, do Instituto Centro de Vida por meio do projeto Rede Floresta e da Iniciativa Internacional para o Clima e as Florestas da Noruega (NICFI), que tornam possível fortalecer a gestão indígena feita desde o território.

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