Construindo estratégias de incidências na agenda climática junto com a COIAB
Em 2024, a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB) convidou a Proteja a construção de uma estratégia robusta de comunicação e incidência sobre as pautas climáticas para os anos de 2024 e 2025. Reunindo lideranças e comunicadores indígenas dos nove estados amazônicos, realizamos o Encontro e Planejamento Estratégico de Comunicação da Agenda Climática em julho de 2024, em Manaus. Vale destacar que nossa relação com a COIAB teve início em 2009, antes mesmo de existirmos como organização sob o nome Proteja. Essa conexão se fortaleceu a partir de 2016, já no contexto da atuação da Proteja.
Nossa relação com a COIAB é antiga. Começou em 2009, ainda antes de existirmos como Proteja, e se aprofundou a partir de 2016. Nesse percurso, aprendemos muito com lideranças que marcaram a comunicação indígena. Entre elas, Délio Alves, do povo Dessana, que coordenou a comunicação da COIAB e ancestralizou em 2018. Ele nos ensinou sobre compromisso, generosidade e força política.
No encontro de 2024, durante uma semana intensa, nos sentamos juntos para escutar, refletir e desenhar caminhos possíveis diante da crise climática. Desde o início, ficou nítido que nosso encontro ultrapassava o âmbito técnico da comunicação, buscando fortalecer uma narrativa potente e coerente com as bases do movimento indígena, refletindo a resistência e sabedoria indígena diante dos desafios ambientais globais. Nossa intenção foi construir coletivamente uma visão de futuro, indo além de produzir um documento, que reafirma o protagonismo indígena na defesa da Amazônia e no enfrentamento da emergência climática, especialmente em momentos decisivos como a Conferência das Nações Unidas para o Clima de 2025, a COP 30.
Essa experiência reforçou a importância de planejar com os pés no chão, atentos às vozes e necessidades dos territórios e valorizando as trocas intergeracionais. Como prática metodológica, provocamos a presença ativa das coordenações de todas as nove organizações de base da COIAB. Para criar um plano realmente representativo, foi fundamental garantir a presença da diversidade da governança da organização. Ao todo, participaram cerca de 80 pessoas, incluindo todas as gerências da COIAB, representantes da rede de comunicadores, coordenadores e representantes das organizações base (Apiam, Apoianp, Arpit, CIR, Coapima, Fepipa, Fepoimt, Mov. Indígena do Acre, Opiroma), coordenação e equipe da APIB (instância nacional do movimento indígena), representação da COICA (instância internacional das organizações indígenas da Amazônia Latino-Americana), coordenação da União das Mulheres Indígenas da Amazônia Brasileira (Umiab), coordenação e equipe do Podáali (instituição que organiza o fundo indígena da Amazônia), representante da APOINME (organização regional com abrangência no Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo) e parceiros institucionais convidados pela COIAB.
Na programação, construímos momentos de reflexão política com lideranças históricas compartilhando seus saberes, destacando a importância central da demarcação das terras indígenas como estratégia essencial para o enfrentamento das mudanças climáticas. Ao mesmo tempo, trouxemos novas perspectivas sobre a urgência de traduzir os debates climáticos complexos em uma linguagem acessível, próxima e autêntica para as comunidades.
Uma das maiores contribuições desse processo foi a consolidação da campanha estratégica de incidência climática intitulada “A Resposta Somos Nós”. A campanha tornou-se um chamado potente à ação global, colocando os povos indígenas no centro das respostas às crises climáticas. A estratégia traçada apontou caminhos para fortalecer a comunicação interna e externa, valorizar os conhecimentos tradicionais, visibilizar as práticas econômicas indígenas e reforçar a mensagem de que o futuro climático só é possível com respeito aos povos e territórios indígenas.
Durante os dias de encontro, tivemos também momentos importantes de acolhimento e celebração, compreendendo que planejar é mais do que organizar ações futuras, é também sobre o cuidado das relações presentes. Desenvolvemos com a COIAB uma metodologia que favoreceu um espaço seguro e acolhedor para que as pessoas pudessem expressar suas preocupações, desejos e sonhos, fortalecendo vínculos entre comunicadores e coordenadores das organizações. Para isso, adotamos uma programação que dividiu os debates em pequenos grupos, garantindo que diferentes visões e pontos de vista fossem compartilhados posteriormente em plenárias, assegurando participação ampla e significativa.
Ao final, apresentamos um documento preliminar do plano para revisão detalhada pelos participantes, uma prática fundamental em nossa metodologia quando atividades exigem a elaboração desse tipo de material. Nosso entendimento vai além da organização de um documento: aproveitamos o esforço logístico e o tempo dedicado pelas pessoas para que possam avaliar o conteúdo com atenção, verificando se as discussões e decisões dos dias de atividade estão devidamente refletidas ou se há pontos que precisam ser ajustados ou incluídos.
Dessa forma, o encontro fortaleceu a estratégia climática da COIAB, reafirmando a importância de um movimento indígena unificado e capaz de atuar estrategicamente em espaços nacionais e internacionais. Nossa metodologia busca soluções construídas coletivamente, sem imposições, potencializando vozes e respeitando profundamente o protagonismo dos povos indígenas. Encerramos essa etapa com a certeza renovada de que o futuro que queremos construir depende da nossa capacidade coletiva de proteger territórios, valorizar saberes ancestrais e sustentar lutas políticas genuínas e comprometidas com as pessoas.



















